terça-feira, 21 de abril de 2015

Presságios de uma primavera

Deixei as portas abertas
pro vento entrar,
varrer tudo embora

Deixei as portas abertas,
pra ver se alguém entra
e bagunça minha casa

A brisa sempre traz algo além
E cá estou eu polinizada,
fecundada pelas primaveras

Ainda deixo as portas abertas,
para ver se o vento leva
o fruto para longe,
para outra terra

Metamorfoseio os ciclos,
E entre verões, outonos e invernos,
Floresço, desfaleço e seco,
e ainda mantenho as portas abertas

Pra ver se aquilo que nutre outrem,
E insiste em apodrecer nos galhos,
germina em outros solos,
mais férteis

Decomposição

Deixe escorrer!
há de estancar a ferida
e as veias abertas

Em litros perdidos
o coração doente,
há de sangrar

O pus há de fluir,
entre vermes, bactérias e vírus
encontrei o miasma da humanidade

Vento de Outono

Quando o sol poente iluminara os pelos daquele cão louro entendera o que a brisa matinal lhe dizia, era o último dia de verão.
Se lembrava daquele cheiro de fim de março onde quer que estivesse, não sabia explicar toda fenomenologia envolvida naquela essência, só entendia que alguma coisa no ar mudava. Era como se pudesse sentir o aroma das folhas se transformando e com isso, se sentia também metamorfoseada.
O vento sempre lhe parecera um mensageiro, o que não lhe era diferente nesta época do ano, a brisa parecia anunciar a chegada sorrateira de Abril e com isso, suas memórias tal como folhas de árvores caducas, eram vagarosamente arrancadas pelas lufadas.
Feito a terra que digere folhas caídas, sua mente buscava assimilar as lembranças. Numa longa inspiração fitou o cão louro que agora lhe sorria, sorriu de volta; melancólica.
Enquanto acariciava a pelagem do cão mirou as copas das árvores, e algumas folhas que iniciavam sua debridação. Pensou, por fim não soube se era folha ou árvore.
Fora ali, naquela cidade em que criara suas raízes e ramificações, contudo, não lhe bastava ser árvore, ser estática e eterna sombra. Tão pouco lhe bastava ser folha; responsável pela manutenção de uma vida. Fitou demoradamente aquela paisagem que a rodeava, e foi entre os galhos de uma árvore que achou sua resposta; uma flor, assim lhe pareceu que deveria ser. O florescer de uma vida que não esquece suas raízes e que um dia será fruto.
Contemplou em silêncio aquela última tarde de calor, e concluiu que talvez todo coração busque não o outono, e sim a primavera.

A humana que queria o mar

Procurei conchas na orla da praia,
Ouvi cada uma com atenção
Cada esqueleto vazio
Contou-me uma tragédia 

Confidenciaram a mim que mar calmo não faz bom marinheiro,
E que a vida em terra firme 
é mais instável que as correntezas

Contaram que há em cada ser humano um oceano,
E das águas que se misturam,
Se fazem maremotos e tsunamis

Quem me dera ser ostra,
Ter uma concha protetora,
E fazer pérolas de meus cânceres

Mas a vida me fez humana,
Não há no meu esqueleto
Som dos mares

domingo, 27 de abril de 2014

Procura-se


“Conte-me mais sobre o que se lembra desse dia”. Fora o que me dissera aquele homem com a caderneta, e fora através dele também que ouvi a primeira frase sensata ao contar minha historia. Seu olhar era de curiosidade, fitava-me com um par de olhos castanhos sem vida, que após meu relato encheram-se de um brilho impar, o óculos que emoldurava seu rosto triste insistia em cair sobre seu gigantesco nariz, e como sinal de sua ansiedade mexia constantemente no farto bigode grisalho de sua face. Inspirei o ar de lavanda, tão artificial quanto tudo naquela sala, ajeitei meu corpo naquela grande cadeira que aos poucos me fagocitava, engoli a saliva que permanecia em minha boca, fechei meu olhos e tentei me lembrar.

-Eu dirigia aquela noite... Não me lembro bem, só sei que eu já não era mais o mesmo.

Ouvi o som de sua caneta contra a superfície dura que segurava em suas mãos, descaradamente, ele me analisava e fazia notas. Enquanto batia com a ponta dos dedos na mesa de madeira me perguntou.

- Mas você não era mais o mesmo durante a ida ou ao voltar? Acredito que faça diferença se lembrar em qual parte do caminho ocorreu este incidente.

Respondi confuso:

-O quão isso é relevante? Talvez ele já não estivesse lá há tempos... Só tenho certeza de que foi naquela noite em que ele definitivamente fugiu.

-O que lhe proporciona essa tamanha certeza?

E pela primeira vez nesta conversa senti o cinismo daquele homem uniformizado, em virtude de sua grosseria impaciente, encarei-o. Olhei o mais fundo que pude em seus olhos e lhe disse:

-Sei bem que fora naquela noite, por muitas vezes sei que dei brechas para que este órgão pulsátil rebelde fugisse porem, nunca antes havia sentido este vazio em meu lado esquerdo. Foi naquela noite que meu coração fugiu. E não importa se fora indo ou vindo de algum lugar. Ele deve ter pulado pela janela, em algum momento de maior emoção.

Talvez ele achasse que eu estivera me drogando a muito, e embora estivesse muito curioso a respeito da historia do coração fugitivo seus risos deixavam claro o quanto achava ridículo que de fato alguém pudesse vivenciar tal situação. Pegou um cigarro de sua caixinha de Lucky strike, fez um sinal pedindo meu consentimento para que pudesse acendê-lo, tragou e retrucou-me enquanto expelia a fumaça cancerígena.

-Meu jovem, você tem ideia do quanto isto é absurdo? Seria mais coerente se me dissesse que roubaram seu coração! E não que ele simplesmente tenha lhe saltado do peito e partido em viagem! No caso da primeira hipótese poderíamos considera-lo um louco, um poeta que gosta de metáforas... Mas acreditar nesta fuga seria no mínimo demência!

Continuei a encara-lo, e como num gesto expressivo de impaciência comum de quando o interlocutor não nos compreende. Juntei meus joelhos e balancei levemente meu corpo. Inspirei e expirei, e por fim, o respondi.

-Tudo que mais quero neste momento é recuperar este coração, e muito se engana o senhor ao dizer que ele não me foi roubado. Eu perdi meu coração para o mundo; o mundo arrancou-me do tórax esta bomba vital. Entendo agora o quanto aprisionei entre as minhas costelas aquilo que sempre me encheu de vida... E vim até o senhor em um apelo, para que quem quer que o encontre me devolva. Acredito que agora serei capaz de mantê-lo comigo, sem sufoca-lo com minhas emoções tão resguardadas. Sinto falta de senti-lo, pulsando a esquerda, das taquicardias e das decisões estupidas que tomávamos juntos. Sei o quanto o maltratei, o quanto o negligenciei, e acredito que este seja o maior motivo da fuga. Portanto, peço gentilmente ao senhor que busque por ele.

O velho analisou-me de cima a baixo, levantou as sobrancelhas, apagou o cigarro em um pequeno cinzeiro branco e me disse com sua voz rouca:

-Entendo o quanto isto lhe faz falta rapaz, acredito que o que esteja ao meu alcance seja distribuir cartazes com a foto de seu coração, a data de desaparecimento e o ultimo local em que fora visto. Espero que isto ajude a saciar o oco que existe em você neste momento.

Naquele momento senti sinceridade nas palavras do velho e parti dali esperançoso, se esta é uma emoção que alguém desprovido de coração pode ter.

Os cartazes foram espalhados conforme o prometido, contudo, meu coração que não habita mais em mim ainda viaja em busca de sua felicidade. Afinal, nós dois sempre ouvimos que casa, pátria ou qualquer outra coisa que nos atribua esse sentimento de acolhimento, é onde nosso coração esta. Continuo a minha busca, continuo a espalhar os cartazes. E sei que mesmo separado fisicamente de meu coração, procuramos a mesma coisa, a diferença entre nós está na coragem. Ele sem pensar duas vezes rasgou meu peito e fugiu, em busca de sua felicidade e liberdade. E a quem encontra-lo, por favor, contate-me. Antes de mais nada preciso agradece-lo.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Amor

Seus dedos seguravam firme um pequeno saco plástico com um peixinho dourado, sentada em um balanço de um parque qualquer, sentia a brisa gélida daquela manhã de outono em sua fronte.
Sentia-se como o peixe, indo de um lado ao outro em busca de algum sentido em meio a agonia de um lugar indefinido e transitório, por vezes pensava que isto seria o purgatório. Ganhara o peixe em um desses sorteios feitos em feiras, não sabia ao certo se deveria ficar com ele, não sabia o que sentia em relação; se era desprezo ou familiarização. Riu para si ao lembrar de que dizem que os peixes dourados tem  memória de apenas dois segundos, ouvira esse boato a muito tempo e não pode deixar de se identificar na época, afinal, sempre lhe acusaram de possuir uma memória curta. Olhava para aquelas escamas douradas e pensou que  talvez aquele peixe a entendesse melhor do que muitos de sua espécie, ambos estavam sujeitos a passar por tormentas e águas desconhecidas, experimentando do doce ao salgado e mesmo assim, estarem eternamente sujeitos em suas existências a não compreensão de seus sentimentos. Muitas vezes de fato ela se esquecia (esquecer as vezes é mais fácil), mas estava farta de confundirem seu esquecimento com ausência de pensamento ou sentimento. Não é por que não se lembra que não dói, ou que as lembranças não existam, sempre imaginou sua mente como as profundezas de um oceano, águas povoadas por poucos, um território inabitável pela maioria.
Após muito lhe observar, apaixonou-se; amou o peixe. Percebendo o amor que sentia, pensou na vida em que teriam juntos, em olha-lo todos os dias, admirar cada uma de suas escamas áureas, cada movimento de suas nadadeiras... Até que se deu conta de que seu amor seria sofrimento, pelo menos àquele peixe. Com este sentimento em mãos, correu em direção ao córrego, em seu interior ela sabia que quem ama precisa saber libertar. Sua felicidade não seria completa se ele estivesse infeliz, ali, preso em uma redoma de vidro, limitando a vastidão de suas águas. Colocou o saquinho na água corrente, em um último gesto de admiração observou o sol refletir na superfície do rio e colorir as escamas de seu pequeno amor. Sentiu parte de si mesma deixando-a, sabia que no fundo isto era uma vaga tentativa de seguir junto dele seu destino;ser refém de sua própria liberdade. 

Coisas Mortas

O sol a pino tornava sua caminhada exaustiva, os cadernos escorregavam de suas mãos devido ao suor e a alça de sua bolsa constantemente deslizava de seu ombro, a cada passo o asfalto parecia derreter debaixo de seus pés; naquele instante seu maior desejo era chegar a sua casa.
Atravessando uma rua de contrastes - a beira de um córrego com casebres de madeira mal estruturados, que concomitantemente contornavam casas exageradamente imensas – se deparou com um menino muito sujo fitando a calçada de um terreno baldio. Os pés e mãos estavam sujos de terra, usava uma roupa surrada, tinha um graveto em mãos, o qual usava para cutucar o que até então lhe parecia terra.
Seguindo a lógica de um pensamento fechado, foi seguindo seu caminho, continuando a jornada de regresso, até que fora interrompida pelo chamado do garoto.
- O tia! Você pode me ajudar?
Para quem sempre a doçura das crianças fora algo impossível de negligenciar, se aproximou e perguntou:
- O que você precisa?
Segurando o graveto ainda, apontou em meio a terra; havia um passarinho morto ali.
- Me ajuda a enterrar esse passarinho?? Não quero deixar ele aí...
Imediatamente confirmou a ajuda ao menino, e juntos começaram a cavar um pequeno buraco. Com uma folha, pegou o passarinho, e como se este estivesse apenas em um sono profundo, fizeram uma pequena cama para ele dentro do buraco. Cobriram com terra e enfeitaram com algumas folhas, pedras e flores. Fizeram silêncio, não era necessário dizer nada.
A garota se despediu do menino e seguiu seu curso, durante este trajeto, pensou inúmeras vezes no motivo do menino ter feito aquilo; enterrar um ser-vivo qualquer, sem quais quer vínculos. Talvez o garoto não sentisse o peso dos anos ainda, talvez não sentisse as coisas mortas para se enterrar existentes no âmago das pessoas grandes, talvez ele fosse mais humano, ao conseguir olhar para outro ser e querer que este tivesse um ritual de passagem bonito, talvez só conhecesse melhor que todos que a vida é uma coisa muito frágil.  

Certamente, ela nunca acharia uma resposta esclarecedora, mas depois daquele dia, todas as vezes em que se deparou com as coisas mortas de seu cotidiano, sua mente buscava o pequeno garoto na memória e assim, procurava um rito de passagem, mais bonito, sensível e humano.